“Viva um dia de cada vez” e outros conselhos de saúde mental

As pessoas acham que vão estar para sempre com medo e a usar máscaras”, mas “não é verdade”, afirmou há dias o psicólogo clínico canadiano Steven Taylor, em entrevista ao jornal Público. “Algumas pessoas vão desenvolver problemas de saúde mental crónicos como resultado desta pandemia, mas vão ser a minoria”, talvez a 10 a 15% da população, acrescentou, o psicólogo, com base em estimativas provisórias.

Steven Taylor é professor na Universidade da Columbia Britânica e publicou em 2019, quando ainda nem se falava da pandemia da covid-19, um livro premonitório: The Psychology of Pandemics: Preparing for the Next Global Outbreak of Infectious Disease. “A maioria das pessoas vai recuperar. Haverá uma minoria de pessoas que desenvolvem coisas como ansiedade e depressão crónicas ou síndrome de stress pós-traumático e que precisam de serviços de saúde mental a longo prazo”, declarou o especialista.

Segundo Steven Taylor, “é muito importante que as pessoas prestem atenção à sua saúde mental e que identifiquem os sinais de alerta”, como o facto de não conseguirem dormir, de andarem mais irritáveis e ansiosas ou de comerem e beberem mais do que o habitual.

Se estamos confinados é bom ter uma rotina, dormir o suficiente, comer bem e fazer exercício físico, falar com amigos e pessoas que amamos de forma segura. Se isso não for suficiente, há recursos de saúde mental online, para se aprender a gerir o stress. E, claro, se nada disso resultar: é importante consultar o médico de família, para ter ajuda profissional”, recomendou o psicólogo. 

Desde a chegada da pandemia ao Ocidente, em inícios de 2020, que se fala dos efeitos do confinamento, das quarentenas e de outras normas das autoridades sobre a saúde mental. Logo em Março do ano passado, a Organização Mundial da Saúde divulgoudicas para enfrentar consequências psicológicas e mentais do novo coronavírus”, porque a crise da covid-19 estava a gerar “stress, incerteza, isolamento social e desemprego”. Em Abril, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa chegou a criar um serviço de videoconsultas de apoio psicológico online e gratuito. E em junho o Diário de Notícias escrevia: “Não se sabe se a pandemia veio agravar esta situação, mas nos primeiros três meses do ano foram vendidas mais 400 mil embalagens [de ansiolíticos e antidepressivos] do que no mesmo período em 2019.”

É possível dizer, com base apenas em suposições, que as pessoas que se dedicam ao trabalho sexual podem sofrer ainda mais as consequências psicológicas da actual crise — por estarem em muitos casos com menos trabalho e terem de lidar com incerteza de rendimentos e a pressão das regras impostas pelas autoridades, que não lhes permitem trabalhar, como mostram depoimentos recolhidos pelo Afirmativo nas últimas semanas.

Daí a importância dos conselhos de especialistas em saúde mental. A Ordem dos Psicólogos portugueses publicou em Janeiro uma série de dicas. “No primeiro confinamento, o nosso esforço e sacrifício eram alimentados pela esperança de resultados positivos, numa missão que nos unia a todos. Neste segundo confinamento, esperamos igualmente resultados positivos, mas podemos sentir-nos mais bloqueados e menos motivados perante um futuro que permanece incerto e restrições impostas para combater a pandemia que ainda não nos permitiram regressar à vida normal”, resumiu a Ordem dos Psicólogos.

O Serviço de Saúde Ocupacional do Instituto Politécnico de Lisboa divulgou também em Janeiroalgumas sugestões para ajudar a lidar com a incerteza” da pandemia. Por exemplo: “aceite a incerteza e a imprevisibilidade”, “dê um passeio sem definir o trajecto à partida, escolha um filme ou série sem saber qualquer informação”, “recorde episódios cuja incerteza esteve presente de início e que correram bem” e “viva um dia de cada vez”.

A mesma entidade escreveu que há “comportamentos facilitadores”, como por exemplo “confiar nas suas capacidades para resolver e ultrapassar problemas e situações difíceis”, “manter uma alimentação saudável” e fazer “exercício regular” ou “aceitar-se como é, com os seus defeitos e qualidades”.

Imagem: Afirmativo/PxHere/CC

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