Carlos Alves, stripper: “Comecei a fazer trabalho sexual por causa da pandemia”

“Chamo-me Carlos Alves, tenho 36 anos e vivo no Norte. Tenho uma companheira, que está comigo há quase 15 anos. Ela vê o meu trabalho como apenas um trabalho e respeita o que faço. Há dois anos comecei a fazer striptease, como amador. Pediram-me para fazer e eu, como sou desinibido e não tenho qualquer tipo de pudor, aceitei.

Ao mesmo tempo trabalhava como segurança na noite, em bares e discotecas. Mais tarde chamaram-me para trabalhar numa casa de prostituição na zona Norte. Estive num “puteiro”, depois passei para outro. Neste segundo “puteiro” o ambiente era muito pesado, vi e ouvi de tudo, mas a minha mente é aberta e tive bom poder de encaixe. Elas nunca me faltaram ao respeito, eu nunca lhes faltei ao respeito a elas. Entretanto, veio a pandemia.

Era empregado de um restaurante no Porto, com um conceito erótico muito interessante: havia shows de strip e eu atendia à mesa de boxers e laço, enquanto uma colega atendia de lingerie. Estava também num ginásio como preparador físico. Como se sabe, os restaurantes e os ginásios foram obrigados a fechar. Passei do 80 para o 8. Estava a ganhar bem até Março do ano passado e de repente parou tudo. Todo o dinheiro que tinha de parte foi para pagar contas e para ajudar aqui em casa.

Na noite, houve uma queda abrupta de clientes e muitas colegas minhas passaram a atender os clientes habituais em apartamentos, mas sempre com pouco trabalho. A situação ficou apertada para toda a gente e percebi que não ia arranjar trabalho tão cedo. Por sugestão de um amigo que é transexual, decidi que o melhor seria publicar um anúncio na internet. “Tu és bonito e és alto, pode ser que tenhas sorte”, disse-me o meu amigo. A partir daí começaram a surgir propostas. No fundo, comecei a fazer trabalho sexual por causa da pandemia.

Trabalho por dinheiro e o que faço é dar prazer à pessoa que me contrata. É como quando compramos um carro e temos prazer a conduzi-lo. Os momentos em que estou com as pessoas que me pagam são isso mesmo: procuro dar-lhes prazer. A sociedade pode considerar-me uma pessoa que trabalha na noite, que trabalha com o corpo, que vende o corpo ou que faz prostituição. A meu ver, sou um profissional do sexo.

Os clientes procuram na internet, vêem o meu anúncio e se gostam das fotos e da descrição ligam-me ou falam comigo por WhatsApp. Depois combina-se o preço à hora. Tenho um preço para homens e outro para mulheres. Se os homens pedirem sexo anal, cobro 200 euros. Sou activo, não sou passivo, e não faço sexo oral. Sou heterossexual e para ter relações com homens tenho de tomar Viagra ou algum tipo de medicação que me ajude. Se fosse bissexual, seria mais fácil e não estaria a perder tanto dinheiro como estou. Até já tenho passado alguns trabalhos a colegas meus, porque não os quero fazer.

Posso ou não fazer striptease no início do encontro, o cliente é que decide, mas gosto de começar por aí para quebrar o gelo. Chegar a casa de alguém, ou motel ou hotel, e passar logo para o sexo é um pouco abusivo. Gosto de conversar nem que seja 15 ou 20 minutos, para saber um pouco mais da pessoa.

Nunca atendo na minha casa, vou ao local. No início levava mais alguma coisa pela deslocação, mas, como isto está, ninguém quer gastar dinheiro e já não cobro a deslocação. Actualmente, os homens são os principais clientes. Posso ir a qualquer zona do país, mas sobretudo aqui no Norte: Porto, Braga, Guimarães, Viana do Castelo.

Quando tenho clientes, é um trabalho que rende. Neste preciso momento o negócio está fraco por causa do confinamento. Não diria que as pessoas têm medo da covid-19. Vamos ser sinceros: quem contrata alguém para fazer sexo, a última preocupação que tem neste momento é o vírus. Dou um exemplo: há um cliente meu que tem negócios, teve de despedir duas pessoas, pôs outras em lay-off e teve de fechar o estabelecimento. Não está com disponibilidade financeira. Já lhe baixei o preço, mas ele diz que até mesmo a nível psicológico anda um bocado afectado.

Eu próprio estou sempre mais inquieto com as doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis ou a sida, do que propriamente a covid. Considero-me uma pessoa saudável, embora sofra de bronquite asmática e saiba que se apanhar um vírus respiratório posso ter problemas graves. Mas estou em boa forma física e tomo precauções, claro. Aliás, vivo apenas com a minha companheira, não tenho pessoas de idade à minha volta. Se tivesse, talvez andasse mais preocupado.”

Depoimento recolhido por telefone e editado.
Imagem: Afirmativo

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