Leandro, acompanhante: “Não é só o medo da covid-19 que reduz a quantidade de clientes”

“Sou prostituto — não tenho receio desta palavra. Comecei há mais ou menos 15 anos e pelo meio fui tendo outros trabalhos. Neste momento, a prostituição é a minha única fonte de rendimento. Permite-me não ter de esperar pelo fim do mês para receber o ordenado, como nas outras profissões. Aqui recebo logo. Gasto, como qualquer pessoa, mas o dinheiro está sempre a entrar a cada dia.

Nasci e vivo no Porto, considero-me bissexual. Tenho um filho e nunca fui casado. Para mim, a prostituição é uma actividade normal e natural. Estamos aqui para satisfazer os desejos das pessoas, já estou habituado a tudo, realizo todas as fantasias sexuais de homens e casais. Mulheres sozinhas são muito poucas. Os casais procuram-me porque assim evitam que ele ou ela vão procurar sexo fora da relação, às escondidas. Preferem pagar a um prostituto, porque o prostituto dá segurança e guarda segredo.

Também atendo homens individualmente, normalmente com 30, 40 anos, mas os casais heterossexuais são a maioria e têm por volta de 40, 50 anos. A mentalidade portuguesa evoluiu, antigamente um casal não seria capaz de pagar a um acompanhante. Hoje, sim. Mesmo os homens sozinhos que vêm ter comigo até podem ter mulher e filhos em casa, mas não vêem problema em ter relações sexuais com outro homem. Acho que é um sinal de que as mentalidades se estão a abrir.

Por causa da pandemia, o trabalho diminuiu e tenho metade dos clientes. Tem sido assim com quase todos os profissionais do sexo: quem atendia quatro ou cinco, hoje atende dois ou três. Também é mais difícil mudar de cidade, por causa das restrições de circulação. Por norma, costumo mudar de cidade várias vezes por mês, por vezes vou para França, Itália, Bélgica, Alemanha. Não podemos estar mais do que duas semanas numa cidade, passamos a ser considerados “batidos”. Os clientes gostam é de novidades e os que repetem são poucos. Nestes meses de pandemia viajei menos e nunca saí da zona Norte.

Felizmente, consigo ter pelo menos um cliente por dia — depende dos dias, claro. Mas não baixei os preços. As mulheres é que tiveram de baixar, os homens não e as trans também não, continua a ser por volta de 40 ou 50 euros. O nosso trabalho é mais difícil do que o das mulheres, porque temos de ter maior capacidade física: gostemos ou não dos clientes, temos de o levantar; as mulheres não.

Tenho a certeza de que não é só o medo da covid-19 que reduz a quantidade de clientes. Como o país está todo fechado, em confinamento, as pessoas já não conseguem arranjar desculpas para sair de casa. Por exemplo: se um homem quer vir ter comigo, o que é que ele vai dizer à mulher? Os cafés estão fechados, os amigos dele estão em casa, ele vai dizer que vai aonde? Além disso não se pode andar de um lado para o outro, tem de se ter um documento para mostrar à polícia. Andam um bocado restringidos.

Os que acabam por vir aparecem normalmente de máscara. Tenho álcool-gel para desinfectar, evita-se ao máximo o contacto físico, as posições são diferentes, já não há aquele contacto directo, há algumas restrições. Não passei a fazer apenas massagens, como alguns acompanhantes, continuo a fazer serviço completo. Começo com massagem, acabo com relação.

Noto que os clientes andam um bocado preocupados, o que é normal, porque se instalou o pânico no país e as pessoas ganharam medo e têm certos receios. Pessoalmente, não ando assustado e graças a Deus até agora não tive covid-19 — aliás, sempre que sinto alguma coisa, e não é de agora, vou logo ao médico. O que me preocupa neste momento é a falta de rendimento. Entra menos dinheiro, praticamente ando a ganhar para sobreviver.

Outra das coisas que faço é ser responsável por grupos no WhatsApp. Existem grupos nossos, apenas de prostitutos e prostitutas, conhecidos como “grupos de acompanhantes” ou “grupos de putaria”. Os que eu criei são os mais antigos em Portugal, existem há cinco anos. Todos os que entram nestes grupos podem publicar coisas, mas há regras: não se podem ofender uns aos outros, não podem publicar pornografia, etc. Os clientes não entram, claro, mas há associações agregadas aos grupos, como o Movimento dos Trabalhadores do Sexo e Grupo Partilha d’a Vida.

Fazemos a divulgação de clientes que se portam mal, casas de prostituição que maltratam acompanhantes, acompanhantes que maltratam casas, sites de confiança para anúncios, postamos tudo. É também uma forma de alertar as acompanhantes para perigos, assaltos e outros problemas com que lidamos todos os dias.”

Depoimento recolhido através de videochamada e editado.
Imagem: Afirmativo

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