Laura Colombiana, acompanhante: “O trabalho está pior agora do que em Março do ano passado”

“Toda a gente tem medo do coronavírus, claro, é preciso ter fé em Deus e na Virgem de Fátima. Tenho os meus cuidados: higiene, máscara, apartamento limpo, cheiroso, arrumado. Quem me conhece — os clientes, as outras meninas, os donos e donas de casas — sabem que sou muito higiénica, desinfecto tudo com lixívia, todos os dias. Sempre fui assim, muito antes da pandemia.

Graças a Deus, nunca apanhei doenças. Acredito que se a pessoa tiver higiene e uma boa alimentação consegue boas defesas. Sou uma pessoa que se cuida muito. Sempre tive uma saúde de ferro, dificilmente fico doente e nunca estive internada num hospital, nada. A cada seis meses faço depurativos e no dia-a-dia tomo vitaminas, alimento-me bem e durmo bem. Sou uma mulher abençoada.



Nasci na Colômbia e quando era miúda, namorava muito, tinha vários namorados ao mesmo tempo. Hoje trabalho como acompanhante, através de anúncios. Estou nesta vida pelo mesmo motivo de todas as outras: porque preciso de dinheiro. Cheguei a Espanha com 21 anos e trabalhei em clubes. Naquela época ganhei muito dinheiro, tinha casas e carro, mas fui vendendo tudo. Queimei tudo. Era nova e louca, claro que me arrependo.

Depois fui casada, divorciei-me e até agora não tive filhos. Há três anos vim para Portugal e tornei-me acompanhante. Saí e voltei a entrar nesta vida. Aliás, tenho dupla nacionalidade, colombiana e espanhola, por isso viajo um pouco por toda a Europa. Vou e volto, fico em casa de amigas. A minha família e os amigos na Colômbia não fazem ideia da minha vida, digo que tenho um português que me ajuda. Eles também não vão para a internet procurar os sites portugueses com anúncios, por isso, não me preocupo.

Tanto trabalho pela internet como faço convívio. É-me igual, o importante é ganhar dinheiro. Alguns clientes portugueses estão habituados a barateiras, mas eu não quero isso, não quero clientes que pagam pouco e mal. Quero qualidade. Sei que há acompanhantes portuguesas e brasileiras que estão a sofrer e que fazem preços muito baixos — algumas fazem por 20 ou 15 euros, eu não faço de certeza.

De uma forma geral acho que o trabalho está pior agora do que em Março do ano passado, quando a pandemia começou em Portugal. Para mim, a primeira vaga foi normal, não tive grandes quebras. Graças a Deus continuei a trabalhar e agora não me queixo. Uns dias são bons, outros são fracos, como em todo o lado. O mês de Dezembro não foi mau, estive em Vila Real e fiz umas centenas de euros por dia. Agora em Janeiro, por causa do novo confinamento, o trabalho baixou um pouco, mas continuo a atender diariamente. Aliás, Janeiro sempre foi um mês mais fraco, porque as pessoas gastam muito dinheiro no Natal e têm menos no início do ano.

Há quem continue a trabalhar bem, há quem esteja a fazer pouco. Algumas publicam fotografias falsas nos anúncios e os homens estão cansados disso, chegam à porta do apartamento e encontram uma pessoa totalmente diferente da que estava nas imagens. Eu só trabalho com fotos verdadeiras e por isso não perco clientes.

Até agora, não ouvi falar de subsídios do Estado para as acompanhantes e tenho a certeza de que vai acontecer. O Estado dar dinheiro? Não acredito. Nem às portuguesas, quanto mais às estrangeiras. Quem quer 100 euros de ajuda? Se me dessem mil euros, parava. Como não me vão dar nada, mais vale continuar a trabalhar.”

Depoimento recolhido por telefone e editado.

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