Revolução OnlyFans já chegou a Portugal?

Nudes, vídeos soft ou hard, todo o tipo de fantasias já gravadas ou on demand. Pandemia acelerou utilização de plataformas de sexo virtual. Profissionais do sexo contam como funciona e como reagem os portugueses.

Filipa, 27 anos, camgirl de Lisboa há uma década. “Mas só comecei a tomar isto a sério há sete anos”, conta ao Afirmativo, numa entrevista por telefone. Dedicada exclusivamente ao digital, ouviu falar do OnlyFans quando a plataforma começou a popularizar-se entre os trabalhadores do sexo. “Inicialmente não acreditei no OnlyFans”, assume. Mas a dada altura rendeu-se. Pensou: porque não experimentar?

Abriu a conta em Outubro do ano passado, já a pandemia da covid-19 estava firmemente instalada. Hoje tem 100 fãs que a seguem na conta paga — porque tem uma segunda conta gratuita onde dá a mostrar alguns teasers, vídeos curtos para despertar o interesse. Cada um daqueles 100 seguidores da conta hard paga todos os meses 10 dólares (cerca de oito euros) para aceder a conteúdo mais explícito, o que pode incluir vídeos a solo ou com um parceiro. “Mas essencialmente trabalho sozinha”, ressalva.

O OnlyFans é uma plataforma online sob a lógica pay-per-view e tem vindo a provocar o esbatimento das fronteiras que definem o que é trabalho sexual e quem é considerado um profissional desta área. “Alterou para sempre o trabalho sexual”, escrevia em 2019 o jornal The New York Times. Quando até figuras públicas produzem conteúdos eróticos e os comercializam no OnlyFans, a distância reduz-se entre estes novatos inesperados e quem já vendia o corpo na Internet há muitos anos mas noutras plataformas. Basta um smartphone, talvez uma boa iluminação, e uma pose sugestiva, de preferência com reduzida indumentária, para criar conteúdo passível de ser pago por seguidores mais ou menos fiéis — assim se faz dinheiro.

Fundado em 2016 pelo empresário britânico Tim Stokely, o OnlyFans é uma plataforma web, sem aplicação para telemóveis, detida pela empresa Fenix International Limited, com sede em Londres e apenas dois funcionários registados. Tinha como objectivo ajudar os criadores a venderem os seus conteúdos directamente ao público. O facto de possibilitar a publicação de conteúdo erótico e pornográfico fez com que fosse tomado de assalto pelos trabalhadores do sexo, sendo estes hoje uma grande parte dos 50 milhões de utilizadores inscritos na plataforma.

Apesar de não existirem dados oficiais, estatísticas coligidas pelo Influencer Marketing Hub indicam que estão activos mais de um milhão de produtores de conteúdos. Nos meses da pandemia, só no Reino Unido terá havido um aumento de 42% no número de perfis, segundo o jornal Daily Mail. Um criador pode ter subscrições mensais para acesso aos seus conteúdos, como quem fornece a assinatura de um jornal ou de software, ficando o OnlyFans com 20% do valor pago pelos subscritores, aqui chamados fãs. Segundo o Influencer Marketing Hub, cada criador de conteúdos ganha uma média de 180 dólares por mês.

Filipa não é uma novata: iniciou a carreira a fazer espectáculos ao vivo numa página online portuguesa de camshows Depois de algum tempo a trabalhar neste formato, resolveu lançar-se por conta própria em 2012. “Queria ser empresária, não queria depender de sites”, acrescenta. “É muito mais lucrativo fazer os shows e ter os nossos meios de pagamento, como MBWay, entidade e referência, entre outros”. Em 2014 já tinha o próprio site e começou a produzir conteúdos para diversificar, além dos espectáculos ao vivo. O OnlyFans foi um passo natural na estratégia de distribuição destes conteúdos.

Uma vantagem da plataforma britânica é permitir também que os fãs requeiram conteúdos personalizados directamente aos produtores. “Compensa, porque tudo o que é shows privados, foto e vídeo personalizados, tudo isso não está incluído na subscrição”, diz Filipa. Quando desafiada para falar de valores, explica que “um vídeo pode chegar aos 50 dólares, dependendo se tem fetiche, se é fácil ou difícil, se é comigo sozinha ou se entra um parceiro. Mas imaginemos uma nude personalizada. Aí já lhe consigo dar um valor fixo: 5 dólares”, detalha Filipa.

Mesmo assim, num mercado pequeno como o português, as receitas estarão longe dos 30 mil dólares diários de Jem Wolfie, ex-basquetebolista australiana detentora da conta de OnlyFans com mais subscritores.

“OnlyFans não me trouxe vantagem na pandemia”

O OnlyFans tem sido descrito como uma tábua de salvação para trabalhadores do sexo no mundo inteiro, numa altura em que tanto os clientes como os próprios trabalhadores se escusam a encontros presenciais no temor de contrair o novo coronavírus. A pandemia provocou uma quebra nos rendimentos destes profissionais, espoletando inúmeras situações de carência entre quem já tinha, em tempos normais, uma vivência à margem.

Contudo, apesar do sucesso internacional, os profissionais do sexo ouvidos pelo Afirmativo revelam cepticismo sobre o potencial da plataforma de gerar receitas, num país onde o sexo é barato e a tecnologia ainda é encarada com desconfiança.

Monique, 32 anos, é uma mulher trans que se dedica à prostituição desde 2001. Em Março do ano passado interrompeu tanto o trabalho presencial como o virtual. Ainda antes, já tinha percebido a força do impacto da epidemia no trabalho sexual, com a perda de clientes na Bélgica, onde se encontrava em Fevereiro. “Prefiro trabalhar fora porque ganho mais. Mas desde a pandemia regressei a Portugal, onde vivo”, recorda.

Com o alastrar das infecções, fez uma pausa e dedicou-se a “causas sociais”. Com a acalmia do Verão, tentou regressar ao trabalho. Resolveu parar de novo no fim do ano. Graças a uma gestão financeira prudente no passado conseguiu manter-se nos últimos tempos. “Tive sempre uma reserva”, assume. “Pude ficar até um ano sem trabalhar”.

Tem OnlyFans há mais de um ano, mas diz que a plataforma não lhe trouxe vantagem comercial. O valor da assinatura de Monique é de 50 dólares mensais (41 euros). Neste momento tem apenas um subscritor. “Já tive 16 fãs, quando estava viajando no auge. Dezasseis fãs a 50 dólares é um bom dinheiro”, reconhece.  

Contudo, sublinha, o OnlyFans não lhe “trouxe vantagem” na pandemia. “Pelo contrário, na pandemia perdi seguidores.” A razão para tal tem a ver com as exigências da plataforma — e dos fãs. Como não consegue produzir conteúdo de forma consistente, algo que a própria plataforma requer, acabou por negligenciá-la: “Para eu fazer conteúdo tenho de fazer sexo com alguém. Os clientes querem ver sexo duro. Porque eu faço sexo com pessoas verdadeiras, faço PrEP”, diz, referindo-se ao medicamento que pode prevenir a infecção do vírus da sida. Porém a pandemia impediu-a de combinar encontros e isso extinguiu a possibilidade de gravar novos vídeos.

“Não é algo que interfira no meu dinheiro no final do mês”

Rafael, 28 anos, trabalha desde 2011 como acompanhante junto do público homossexual. Depois de uma viagem pela Ásia no início de 2020, regressou a Portugal convencido de que a pandemia estava para durar. O que sucedeu a partir de Março fê-lo decidir que não voltaria a trabalhar presencialmente sem garantias de segurança.

A conta de Rafael no OnlyFans data de Outubro de 2018. O preço manteve-se constante: 9,99 dólares mensais pelos conteúdos, “o valor-padrão que muitos cobram”, conta ao Afirmativo. “No início não tinha quase nada”, assume, mas o número de fãs começou a crescer. Chegou a ter 150 num mês, alimentados por vídeos que fazia sozinho ou acompanhado, especializando-se em gravar sexo em espaços públicos. Hoje tem 38 fãs, perto do seu mínimo de 30. O facto de ter de publicar de 8 em 8 dias, de acordo com as exigências da plataforma, fez com que optasse por uma pausa em Novembro do ano passado.

O OnlyFans não fez diferença nos seus rendimentos, diz Rafael, que tem subsistido com as suas poupanças. “Não é algo que interfira no meu dinheiro no final do mês”, reconhece. Usa a plataforma para um contacto mais próximo com quem o segue. E poucos são portugueses. “Devo ter cinco aqui no OnlyFans, o resto é tudo de fora por conta da minha conta do Twitter. Daqui mesmo, tenho pouquíssimas. Tanto aqui como na Espanha. Porque o sexo [nos dois países] é muito fácil, então eles não querem pagar por isso.” Isto é, não querem pagar por meros conteúdos digitais.

Paralelamente, Filipa defende que o problema pode ser outro. A camgirl diz que não tem mais subscritores portugueses porque estes ainda sentem relutância em inserir os dados do cartão de crédito na plataforma. “Se não houvesse essa exigência do cartão de crédito acredito que teria o dobro ou o triplo de fãs”, arrisca.

Rafael ficou sem trabalhar até ao final do ano e só regressou recentemente para os clientes fixos que já tinha antes. Está convicto de que o mercado digital ficou saturado por não-profissionais: “A quantidade de pessoas que fazem isso para pagar uma conta é enorme. O maior desafio é simplesmente as pessoas que estão a fazer isso da maneira errada”, defende. Porque, sublinha, “é como se fosse trabalho de escort” [acompanhante]. É uma ilusão achar que se vai fazer muito dinheiro na plataforma, crê Rafael. “O OnlyFans não paga 10 mil por mês. As pessoas mais experientes que fazem há mais tempo sabem que não é assim”, diz.

Texto: Pedro Garcia
Imagem: Afirmativo

%d bloggers like this: