Crise da covid-19 faz aumentar prostituição no Reino Unido

Em tempos de crise, há mais pessoas a fazer trabalho sexual. Esta constatação é já um lugar-comum e surge, por exemplo, no livro Sex Work and Money, publicado em Abril de 2020 pela norte-americana Lola Davina, uma antiga trabalhadora sexual que se tornou activista. “Ao longo da história, as crises sempre levaram as pessoas a praticar actividades eróticas: temos de fazer tudo para sobreviver”, escreveu a autora.

Daí que não surpreenda uma notícia publicada a 8 de Janeiro pelo jornal britânico The Independent, segundo a qual “é cada vez maior o número de mulheres a fazer trabalho sexual pela primeira vez devido ao ‘desespero da pobreza’ provocada pela pandemia”.

A organização English Collective of Prostitutes (que defende a descriminalização da prostituição), disse ao Independent que desde a chegada do coronavírus ao Reino Unido, em Março do ano passado, tem recebido contactos de “centenas de funcionárias de escolas, esteticistas e empregadas de balcão e de limpeza” que perguntam como podem começar a fazer sexo comercial. O aumento tem sido “substancial”, escreveu o diário britânico, embora não indique quais as actividades em crescimento: sexo em apartamentos, sexo virtual ou outras práticas.

Ainda de acordo com o English Collective of Prostitutes, as mulheres que já eram prostitutas antes desta crise têm tido dificuldades em comprar alimentos para si e para os filhos. Em alguns casos não têm dinheiro para pagar a renda da casa.

Uma prostituta britânica de 42 anos relatou ao Independent que as dificuldades já existiam antes da covid-19 e que se agravaram entretanto. O apartamento em que trabalhava foi obrigado a fechar durante o primeiro confinamento geral no Reino Unido, na Primavera, e mais recentemente a partir de Novembro.

Niki Adams, do English Collective of Prostitutes, acrescentou que o Governo britânico “não tem dado qualquer apoio adequado” às pessoas que fazem prostituição. “Estamos fora das ajudas do Governo. A maioria das trabalhadoras sexuais tem filhos, mas as pessoas não sabem. Quando se tem filhos, é difícil encontrar um trabalho que sustente a família”, acrescentou a activista.

Em Setembro último, a estação de televisão Sky News também tinha noticiado que havia cada vez mais estudantes britânicas a fazer trabalho sexual devido à falta de dinheiro provocada pela crise da covid-19. 7% de estudantes disseram ter enveredado pelo trabalho erótico ou sexual com o objectivo de obterem rendimentos. Destes, 77% eram mulheres, divulgou a Sky News, com base num inquérito do Save The Student, um site com sede em Londres que publica informações sobre economia e finanças para pessoas em idade escolar.

Em Portugal não se conhece qualquer estatística credível sobre o trabalho sexual e não se sabe se a actividade cresceu desde o início da pandemia, em Março do ano passado. No entanto, como explicou recentemente ao Afirmativo a empresária Ana Loureiro, proprietária de duas casas de prostituição (em Lisboa e Évora), há hoje mais “casas de meninas” na zona da Grande Lisboa do que há alguns anos e muitas vezes dão trabalho a menores de idade.

Desconhece-se se o presumível aumento em Portugal está directamente relacionado com a pandemia. Mas é possível colocar a hipótese de que a crise provocada pelas restrições face à covid-19 tenha vindo a acelerar uma tendência que já se verificava. Em 2014, por exemplo, um responsável pela associação de apoio a prostitutas O Ninho disse ao Jornal de Notícias que era crescente o número de mulheres a fazer trabalho sexual: algumas, a partir dos 18 anos, oriundas de “meios familiares desestruturados” e outras, a partir dos 45, sem emprego, com dívidas e dificuldades em encontrar trabalho formal por causa da idade.

Imagem: Gerd Altmann/Pixabay/CC

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