Suzana Freitas, camgirl: “Os clientes estão mais cautelosos com os gastos”

“Tenho 36 anos, sou camgirl desde 2017 e nunca fiz prostituição de rua ou em apartamentos. Uma camgirl é uma mulher que se exibe por dinheiro na internet, através da webcam, quase sempre em directo. Também posso vender pequenos vídeos ou fotos, sobretudo a rapazes mais novos, mas isso é secundário. Claro que este é um trabalho sexual, com a diferença de que não há contacto físico com o cliente. Tenho maior segurança e não estou exposta à violência ou aos roubos que acontecem na prostituição cara a cara.

Cheguei a Portugal há três anos e meio. Sou de São Paulo e vivo em Lisboa. Comecei como camgirl um pouco por acaso. Estava à procura de trabalho porque aqui em casa só o meu marido é que trabalhava e pagava as contas. Ele é artista, por isso, no Inverno tem menos trabalho. As reservas que tínhamos trazido do Brasil acabaram-se um dia. Foi então que vi um anúncio no OLX a dizer que precisavam de mulheres para entretenimento masculino através da Internet e por telefone. O que me chamou a atenção foram os lucros que eles diziam ser possíveis, até mil ou 1.500 euros por mês.

O mundo das camgirls não me era totalmente desconhecido. Muitos anos antes, no Brasil, uma amiga minha já tinha comentado comigo que fazia webcam. Falei com o meu marido sobre esta possibilidade. Ele é um pouco ciumento, ficou a pensar e acabou por me aconselhar a responder ao anúncio. Até disse: “Neste caso, sou mais turco do que ciumento.” No Brasil, a comunidade turca tem fama de ser muito chegada ao dinheiro.

Respondi e passei duas semanas no local de trabalho, em Lisboa. Era como que um escritório, mas de fachada. Trabalhava na cave com outra rapariga e havia uma recepcionista, para ver como corriam as coisas e, no fundo, para nos vigiar. O responsável era dono de uma casa de convívio e acredito que a ideia dele fosse realmente abrir um estúdio com camgirls. Mas percebi que afinal as coisas não funcionavam como ele tinha prometido. Os pagamentos semanais de 150 euros não aconteciam, as percentagens não eram pagas. Fiquei de saco cheio e decidi sair.

Foi aí que aquela minha amiga, que já fazia webcam, me disse que eu podia trabalhar a partir de casa. Tinha um computador já antigo, com uma câmara fraca, a iluminação do meu quarto não era boa, mas comecei. Tive de fazer adaptações, comprei uma lâmpada muito forte e coloquei outra atrás do computador, para ter uma imagem mais clara. Entretanto, o computador deixou de funcionar ao fim de dois anos e tive de comprar outro. Aos poucos, as pessoas também começaram a mudar do Skype para o WhatsApp, com a vantagem de que as câmaras do telemóvel têm uma qualidade muito boa.

No início, e ainda hoje, os clientes descobriam-me através de anúncios na internet. Pedi ao meu marido para pesquisar, foi ele que me ajudou no início a encontrar plataformas para publicar anúncios — agora ele já não se envolve tanto. Depois criei um site meu, que continuo a actualizar. Sou eu que escrevo os textos, que mudo as fotos, as cores, os menus. Passo horas a aprimorar o site. Tenho também uma página no Instagram e uso o Snapchat, mas são duas redes que os rapazes que me procuram não utilizam tanto.

Gosto de apostar numa abordagem muito comercial. Tenho o cuidado de criar banners de divulgação, faço promoções, no Natal organizei um sorteio de um vídeo personalizado. Às vezes aposto num lado mais profissional, mas penso que muitos clientes até preferem um visual mais amador.

Em Março de 2020, quando a pandemia chegou, vi acontecer o 8 e o 80. Houve camgirls que chegaram a ganhar três mil euros por mês durante os primeiros tempos, porque os clientes habituais do convívio físico tiveram de migrar para os contactos online.

Em muitos dias comecei às 10 da manhã, parei ao meio-dia para fazer o almoço, e voltei a atender das três da tarde às 10 da noite. Mesmo assim, o meu rendimento caiu para metade. Houve dias em que ninguém me contactava. Para pagar a renda da casa, contas, alimentação, e viver sem luxos, preciso de pelo menos mil euros por mês. Viver com metade disto foi muito complicado.

Passo sempre recibos, mesmo que os clientes não peçam. Passo recibos como “consumidor final”, para que as Finanças aceitem. Por isso, consegui recorrer à Segurança Social, devido à quebra de rendimentos. O meu marido também. Ele e quase todas as pessoas do meio artístico tiveram os trabalhos cancelados. Os meses da pandemia foram mesmo muito complicados.

A grande ironia foi que nunca recebi tantos contactos para convívio físico como durante o primeiro confinamento. Não sei porquê. Já era costume receber chamadas e mensagens de rapazes a perguntar se fazia convívio, porque na verdade não lêem o anúncio com atenção, vêem a foto e contactam-me logo. No início da pandemia aconteceu muito mais.

Ao mesmo tempo, sei que aumentaram os casos de burla: anúncios e perfis falsos, ou imitações de perfis que já existiam, com o objectivo de atrair clientes e pagamentos. Eu própria fui vítima de um esquema desses e até foi um cliente que me ajudou a resolver o problema.

No Verão tudo melhorou um pouco, ainda que as pessoas, depois de tanto tempo trancafiadas em casa, estivessem mais interessadas em sair e procurar diversão fora de casa. Não consegui voltar ao rendimento anterior ao da pandemia. Agora, com a segunda vaga, o negócio voltou a cair um pouco. Outubro e Novembro foram meses difíceis.

Em Dezembro, as coisas melhoraram, talvez porque as pessoas tivessem mais dinheiro, devido aos subsídios de Natal. Antigamente os clientes apareciam logo no início do mês, quando recebiam o salário. Desde que o coronavírus chegou, evitam contactar-me até ao dia 8 de cada mês. Estão mais cautelosos com os gastos e só depois de terem a renda e as contas pagas é que decidem contactar-me.

Ando preocupada, como toda a gente. Ou talvez muito preocupada. Fui diagnosticada com a síndrome de burnout [esgotamento] e também tive covid-19. A minha psicóloga comentou que talvez o stress tenha feito baixar o meu sistema imunitário. Curiosamente, o meu marido fez o teste e deu negativo. Não sei como será o futuro próximo. Janeiro e Fevereiro podem ser meses de pouca actividade. É tudo muito incerto.”

Depoimento recolhido através de videochamada e editado. Fotografia cedida por Suzana Freitas.

2 opiniões sobre “Suzana Freitas, camgirl: “Os clientes estão mais cautelosos com os gastos”

  1. Muito obrigada pelo convite e oportunidade de contar um pouco sobre minha trajectória e como tem sido desde quando começou a pandemia.
    Seu projecto é lindo e espero que estenda-se para além deste período tão difícil que o mundo está a viver, pois ele é necessário para trazer visibilidade às dificuldades de pessoas que trabalham com o sexo, seja ele dentro ou fora da internet.
    Beijos!
    Suzana

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