Como enfrentar a solidão da pandemia?

Os desequilíbrios da saúde mental são alguns dos principais efeitos das medidas de contingência que as autoridades têm imposto aos cidadãos no contexto da pandemia da covid-19. Com a segunda vaga da pandemia, que terá começado em Setembro e Outubro, há mais pessoas em isolamento, seja por quarentena seja por confinamento, o que representa também uma segunda vaga de solidão e ansiedade.

No entanto, há maneiras de ultrapassar o isolamento, sem que isso represente falta de cuidado perante o coronavírus. “Devemos seguir as orientações das autoridades de saúde pública, mas também precisamos de contacto social para além daquele que nos é proporcionado pelos familiares mais próximos”, disse a psicóloga Susan Pinker, citada pelo site CBC (rádio e televisão públicas do Canadá). “Podemos manter a distância física sem manter a distância social”, acrescentou a psicóloga Jolanda Jetton, da Universidade de Queensland, na Austrália.

Conversar com um desconhecido no café, cumprimentar os vizinhos com afecto, olhar nos olhos os empregados das lojas e dirigir a palavra a um entregador de comida ou à pessoa que está na rua a passear o cão — são formas de criar bem-estar mental, porque aumentam a sensação de pertença a uma comunidade, lê-se na notícia da CBC, publicada a 28 de Dezembro.

Podemos sempre sentir que pertencemos a um grupo, mesmo quando a interacção é impedida por fenómenos como os confinamentos. Aderir a cerimónias religiosas através da internet, ter aulas de pintura ou de canto, mostrar alegria ou bater panelas a partir da varanda de casa são tudo formas adaptadas de mantermos a ligação, mesmo que os amigos e familiares mais chegados estejam fisicamente distantes“, escreveu a CBC.

Um estudo de 2014 de Gillian Sandstrom, da University of Essex, no Reino Unido, utiliza a expressão “weak ties”, ou “ligações suaves”, para descrever as interacções sociais aparentemente insignificantes: não têm a força dos laços que unem familiares e amigos, são pouco frequentes e com baixa carga emocional. No entanto, funcionam como uma solução nesta fase da pandemia.

Um estudo feito há 10 anos pela professora universitária Julianne Holt-Lunstad, citado agora pela CBC, já tinha concluído que o isolamento social implica mais riscos para a saúde do que a obesidade, o consumo excessivo de álcool ou a poluição do ar. Recentemente, a Ordem dos Psicólogos portugueses declarou ao Diário de Notícias que o distanciamento físico e o isolamento “causam muito sofrimento e deixam marcas duradouras em muita gente”, desde logo em crianças, adolescentes, idosos, doentes hospitalizados e pessoas que utilizam drogas. Além disso, quem ficou sem emprego ou perdeu rendimentos de forma acentuada, por causa da crise económica que a pandemia acarreta, também vê a saúde mental afectada.

Esta pandemia veio trazer mais incertezas, mais angústias, mais medos, mais ansiedade, mais isolamento, o que em pessoas com maior fragilidade emocional pode significar o agravamento dos sintomas de ansiedade, acompanhado também de sintomas depressivos”, disse à revista Sábado o responsável pela linha telefónica SOS Voz Amiga. Mas acrescentou: “Mais do que nunca, sentimos a necessidade de viver em comunidade, de nos apoiarmos mutuamente, de dar valor a pequenos gestos, como um sorriso de esperança, ainda que com máscara.”

Fotografia: Pxhere/CC

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