Ana Loureiro: “Depois de entrar, já ninguém sai da prostituição”

Tem 37 anos, começou no negócio do sexo aos 24, hoje é proprietária de duas casas de prostituição. Nos últimos meses tornou-se conhecida dos portugueses como rosto de uma petição entregue na Assembleia da República que pede a “legalização da prostituição em Portugal e a despenalização do lenocínio que não seja por coacção”. Foi aliás durante a respectiva audição parlamentar, em inícios de Junho, que Ana Loureiro se envolveu numa polémica: denunciou um juiz de família e menores, alegado ex-cliente, que em contexto de convívio desempenharia funções profissionais, nomeadamente interrogatórios por videochamada a crianças vítimas de abuso sexual. Não disse o nome, mas a imprensa acabou por revelar de quem se tratava.

Joaquim Manuel Silva, o juiz, veio a terreiro considerar as acusações caluniosas e sugerir que resultavam de uma suposta vingança por ter sido ele, há 16 anos, a decidir que os pais de Ana Loureiro deveriam ir a julgamento num caso de burla que lesou o Estado em mais de dois milhões de euros.

A profissional do sexo, depois de ter prestado declarações na Procuradoria-Geral da República foi também ouvida sobre este assunto pelo Conselho Superior da Magistratura, o órgão disciplinar dos juízes, que em Julho iniciou uma investigação a Joaquim Manuel Silva. Na entrevista que agora se publica, Ana Loureiro mantém tudo o que já disse. “Conheço-o perfeitamente, foi meu cliente e só falo disto porque tenho conhecimento de causa”, garante, descrevendo com gestos e citações os factos presumivelmente ocorridos.

A entrevista acontece a propósito da publicação do livro Eu Sou Uma Acompanhante de Luxo, que chegou às lojas em Agosto com chancela da Oficina do Livro (Grupo LeYa). Trata-se de um relato de 158 páginas sob o pseudónimo Andreia Montenegro. Fala de abusos sofridos na infância e do começo como prostituta devido à “negligencia da sociedade e do Estado no seu todo”. Descreve também comportamentos extravagantes de clientes que são figuras públicas, identificando-os de maneira indirecta.

Ao saber do livro, o juiz Joaquim Manuel Silva, que aparentemente merece uma referência anónima na página 75, apresentou uma providência cautelar para impedir a comercialização, mas viu a pretensão negada pela justiça, de acordo com a autora.

Ana Loureiro nasceu e vive em Lisboa. O filho, de 17 anos, e a filha, de 12, estão ambos ao corrente da sua vida profissional. “Pelos meus filhos eu mato e eu morro”, escreve no livro. Oriunda de uma família da classe média, frequentou o curso de direito na Universidade Lusófona e trabalhou numa empresa de análises clínicas e no Infarmed. A partir dos 24 anos, confrontada com o desemprego, o divórcio e a falta de apoio da família, começou a trabalhar como acompanhante — não só de luxo, como aponta o título do livro, também com clientes sem poder económico. Primeiro em casa da “dona Isilda” e depois no bordel Michelle e Assistentes, ambos em Lisboa.

Garante que já se afastou do trabalho sexual puro e duro. Agora gere uma casa em Évora, que abriu em 2018, e outra em Lisboa, na zona do Campo Grande, a funcionar desde o ano passado. É neste último espaço que decorre a entrevista.

Simpática e comunicativa, Ana Loureiro é adepta do Sporting, não gosta de sair à noite e considera-se uma “católica praticante”, devota de Nossa Senhora de Fátima. Com pulseiras a tilintar no pulso e um cigarro entre os dedos, comenta o estado da actividade em contexto de pandemia, defende a descriminalização parcial do proxenetismo e mostra-se chocada com os fetiches de alguns clientes.

Porquê este livro?
Isto começou com a petição. Fiz muitos directos no Facebook e no Instagram para tentar angariar assinaturas e continuo a fazer porque criei uma Iniciativa Legislativa do Cidadão. As pessoas entretanto começaram a sugerir: “Porque é que não escreves um livro, tens tantas histórias para contar?” Fui pensando, falei com as minhas colaboradoras e decidi escrever. Foram 12 anos de profissão, há muita coisa para dizer.

Nunca tinha pensado nisso?
Nunca. No fundo, ao escrever o livro a minha vontade era falar única e exclusivamente da profissão, para tentar desmistificar, para que as pessoas compreendessem o lado de cá, para que vissem a realidade da prostituição através dos meus olhos. Nunca foi para auto-promoção, tanto que eu nem queria abordar a minha vida familiar.

Ou seja, nunca quis falar como Ana Loureiro mas apenas como Andreia Montenegro, o seu “nome de guerra”.
Só como Andreia. Quando enviei o texto para as editoras, enviei como Andreia.

Falou com muitas editoras?
Algumas, mas o primeiro contacto que tive foi por parte da LeYa. Nisso sou muito fiel. Quem contacta primeiro comigo, é com quem eu fico.

Fez muitas alterações ao texto original?
Algumas, mais no sentido de abordar a vida familiar. O editor pediu-me e tinha lógica: para as pessoas compreenderam como se entra neste mundo, eu teria de recuar no tempo. Custou-me um pouco, porque há coisas lá atrás que não gostamos de ir buscar…

A linguagem era mais explícita do que está na versão final?
Não, não, mas eles corrigiram algumas coisas, porque escrevo como falo, é tudo preto no branco. Escrevi no computador portátil, tudo tal qual. O objectivo, como já disse, foi desmistificar a prostituição, para que as pessoas tenham a percepção de que há seres humanos do lado de cá. Se me apresentar ali no café como Ana, sou bem tratada. Se as pessoas entretanto souberem que também sou a Andreia Montenegro, passo a ser maltratada.

Mas nem por todos.
Não são todos, é a maioria.

Escreve que há mulheres que “metem qualquer um dentro de casa” e “já apresentaram uns três ou quatro pais aos seus filhos a troco de um vestido ou de uns ténis”. Deixa a pergunta: “E as putas somos nós?”. Não está a fazer os mesmos julgamentos de carácter de que não gosta?
Quando apontamos o dedo a alguém, temos três dedos virados contra nós, como se costuma dizer. Acabamos sempre por ir parar ao lugar daquela pessoa, para termos noção do que é lá estar. Isto acontece mais vezes do que se pensa. A vida é muito ingrata.

Ou justa.
Acaba por ser justa, mas é ingrata para quem primeiramente levou com os insultos e os juízos de valor. Acontece que há muitas formas de prostituição. Muitas. Hoje, uma das formas, até muito leviana, é a exclusividade, quando um cliente me diz que não quer que eu me deite com outros homens e me pede para eu lhe dizer quanto é que isso custa aos fim do mês. Digo, por exemplo, 2.500 euros. Ele dá-me três mil, mas exige-me disponibilidade a qualquer hora. Pode ser um homem que viaja muito, que é casado, mas quando quiser estar comigo eu tenho de dizer que sim. Se estiver na discoteca ou nas compras, tenho de interromper para ir ter com ele. É isto a exclusividade.

Já lhe fizeram essa proposta?
Já e não aceitei.

Não concorda?
Não, porque a exclusividade paga as contas, sim, mas a pessoa está ali 24 sobre 24 horas e não sabe se o telefone toca às três da manhã ou às cinco. Se o cliente viaja muito e vem a Lisboa duas ou três vezes, óptimo. Mas é um cinismo, porque a acompanhante continua a trabalhar por fora na mesma e fica com a vida completamente empatada.

Qual é a diferença entre estar à espera da chamada de 20 potenciais clientes ou da chamada de um só? Não está sempre empatada?
Não, porque na exclusividade não pode haver negas. Se o cliente me telefona quando estou com os meus filhos e não compreende que não posso ir a fugir ter com ele, como é? Acaba-se a exclusividade. Enquanto acompanhante, não concordo, nunca quis e aqui na minha casa ninguém trabalha nesse sistema. Depois há outras formas de prostituição como os casamentos de fachada, em que as mulheres estão com um homem de que não gostam. Não se divorciam porque querem manter um apelido e um estatuto sócio-económico.

Provavelmente esses casais não têm vida sexual.
Mas é uma forma de prostituição. Eu quando estou com um cliente também posso não ir para a cama, tenho clientes que me pagam para ir com eles a jantares e estou só a fazer um papel.

Se alargássemos muito o conceito de prostituição, qualquer trabalhador seria um prostituto, por vender a sua força de trabalho a um empregador que lhe paga.
O que quero dizer é o seguinte: ao perguntar “e as putas somos nós?” quis transmitir que a maior parte das pessoas que nos apontam o dedo são mulheres que já passaram por três, quatro casamentos e não conseguem estar sozinhas porque não conseguem fazer face às despesas. Eu sou sozinha, prefiro assim, alugo temporariamente aquilo que é meu e depois volto para a minha casa e não meto lá um homem em contacto com os meus filhos. Insultam-nos, desde “vacas” a “putas”, até “vocês deviam era morrer”, mas não têm noção das suas próprias vidas.

Em que circunstâncias recebe insultos? Na rua?
Na rua, não, mas se for ao meu Facebook vai ver que sou insultada de manhã, à tarde e à noite. Há um estigma forte. As pessoas não nos permitem chegar a elas, não nos permitem explicar. Não me considero má pessoa, nem nenhuma das raparigas que trabalham aqui o são. A única coisa que nos diferencia do resto da sociedade é a profissão. Um actor também desempenha um papel, está ali oito horas por dia, beija na boca, vai para a cama com a colega para fazer uma cena e ninguém o insulta. As acompanhantes também desempenham um papel. Aqui somos todas actrizes.

São actrizes?
Completamente, completamente. Daí os nomes artísticos. Nenhuma acompanhante trabalha com o seu nome verdadeiro. Pode parecer ridículo, mas é a realidade: se eu estiver com um cliente, sou a Andreia e não há nada que me atormente com aquele homem, não há nada que me faça sentir inibida, nada. Se for a título pessoal, as coisas são totalmente diferentes, é totalmente o oposto. Uma acompanhante que estivesse a trabalhar sem personagem iria sentir-se retraída, intimidada. Enquanto acompanhantes, com nome e personagem, somos muito seguras do que estamos a fazer. Temos de encarnar aquele lado mais erótico, aquela actriz porno que está ali… Se estivermos sozinhas com o namorado ou o marido, já não vamos dizer certas cosias que dizemos a um cliente. É uma estupidez, porque se é isso que apimenta e se é isso que os homens vêm aqui procurar, porque é que não fazemos o mesmo na vida pessoal? Se calhar, se a mulher fizer em casa certas coisas, ele já não vai procurar a outro lado.

Diz no livro que “não é suposto haver obstáculos sexuais entre um casal”, porque esses obstáculos “fomentam a traição”. No fundo, está a dar conselhos que em última análise prejudicam o seu negócio.
Não prejudicam. Não é exclusivamente o homem casado que procura a prostituição.

Mas os casados são em maior número?
São, mas temos viúvos, homens sozinhos que nunca quiseram ter relacionamentos, outros que não podem ter, devido à vida profissional. Temos pessoas muito carentes que procuram carinho.

Também há rapazes que querem iniciar-se sexualmente?
Sim, mas não aceito, porque não concordo, mesmo que já tenham 18 anos. Sou uma acompanhante muito retrógrada e antiquada, até demais. Quem me conhece, sabe. Não é na prostituição que um rapaz deve perder a virgindade. Por incrível que pareça, muitos vêm porque os pais os trazem. A virgindade perde-se com alguém que nos diga alguma coisa, é uma descoberta, tem de envolver um mínimo de sentimentos. Não é numa casa de meninas que vão encontrar esses sentimentos. Quais sentimentos? A atracção pelo corpo da acompanhante? Não concordo. Nunca tirei a virgindade a ninguém, não permito aqui na minha casa. Para mim, é uma questão de valores morais.

Uma pessoa que trabalha nesta área poderia ter uma visão mais aberta.
Mas não tenho. Falo abertamente sobre sexo, não tenho tabus, mas a nível pessoal tenho noção de que sou muito retrógrada.

Os seus filhos sabem que trabalhou como acompanhante e que vive deste negócio?
Sim, estão a par de tudo. O meu filho sabe mais do que a minha da filha, mas ela é muito inteligente e percebe tudo. Sempre que sai alguma coisa na comunicação social ou quando faço directos no Facebook, digo aos meus filhos. Às vezes ele até se antecipa e traz-me artigos que saíram, para eu ler. O meu filho é que me escolhe as roupas para eu aparecer em público. Quando fui à Assembleia da República, foi ele que escolheu o que eu ia levar vestido. Eu e os meus filhos temos uma relação muito aberta, não há homens, crescemos juntos, cresci com eles. Falamos de tudo. O meu filho andou baralhado, dos 14 para os 15 anos, com as suas tendências sexuais. Eu disse-lhe: “É um assunto que a mãe não sabe abordar contigo, por isso vamos os dois ao Hospital de Santa Maria e pedimos para falar com um médico que nos possa dar apoio.” Assim foi. Levei-o, ele falou e os médicos até disseram que não é habitual uma relação tão aberta entre mãe e filho. Notaram que na minha cabeça é um assunto que me faz um pouco de confusão, porque sou católica, mas ele é meu filho e acima de tudo queria ajudá-lo. Agora está encaminhado e já sabe o que quer.

E se algum dos seus filhos entrasse para esta actividade?
Nem que eu tivesse de cá andar até aos 90 anos, nem que tivesse de voltar a fazer o mesmo, só para eles não terem de entrar. Depois de entrar, já ninguém sai da prostituição.

É como um vício?
Não tem nada a ver com isso. Eu explico. A rapariga conhece alguém, junta-se ou casa-se, constitui vida familiar longe da vida profissional que é o sexo. Esquece tudo, até porque quando se sai há um corte definitivo com colegas. Corta-se com tudo, para arrumar o passado. Mas um dia aparece uma conta para pagar. É daí que surgem mulheres casadas na prostituição. É mais fácil para uma ex-prostituta regressar, fazer um cliente e arranjar dinheiro para pagar aquela conta, do que deixar a conta por pagar. Regressa para pagar a conta, porque está aflita. Está casada há seis ou sete anos, ama o marido, mas está a traí-lo para levar dinheiro para casa. Depois vem uma segunda vez, uma terceira, por aí fora. E um dia é descoberta.

Há muitas mulheres casadas que lhe pedem para regressar?
Muitas. Algumas até estão na fase de preparar o casamento. As pessoas, quando nos ofendem, não têm noção de quem está deste lado. Neste momento só uma pessoa neste país dá a cara pela prostituição, que sou eu. Mas atenção, não é por mim, atrás de mim tenho milhares. Ninguém sabe quem cá anda, se é uma filha, uma irmã, uma tia, a própria mulher. Isto é uma vida tão dupla que há quem mande fazer uma farda para parecer que trabalha numa empresa de limpeza; o marido vai lá deixá-la à porta, mas ela não faz limpezas. Temos uma colega que entra todos os dias na sede do Banco Santander, ali na Praça de Espanha, mas sai assim que o marido vira costas. Quando chega à hora de saída, ela vai a correr, entra para o Santander e o marido vai buscá-la à porta.

Ao contar estes episódios, e outros que estão no livro, cria uma suspeição que põe toda a gente a questionar-se sobre se terá situações destas na sua família. É intencional?
Claro.

Tem dito em entrevistas que há casos de abuso sexual de menores na prostituição feminina.
Todos os donos de casas querem raparigas novas. Algumas chegam porque querem comprar uns ténis novos e os pais não têm dinheiro. Tão simplesmente como isto.

E se os pais descobrem?
Quando descobrem já elas têm uma sustentabilidade financeira que lhes dá autonomia total.

Há raparigas menores a oferecerem-se para trabalhar consigo?
Sim, mas só aceito maiores de 21 anos.

Recebem quanto?
Considero isto uma profissão, por isso é que defendo, e disse na Assembleia da República, que o Estado deve estipular um desconto com base numa média de rendimentos mensais de mil a 1500 euros. E quem deve pagar é a dona do espaço para o qual as raparigas trabalham. Quem trabalha por conta própria, fará o próprio pagamento.

E se houver um mês em que a pessoa factura muito menos de mil euros? Aí acontece como com os trabalhadores a recibo verde: têm de pagar impostos com base naquilo que não lucraram.
Nesta actividade ninguém factura menos de mil euros por mês, mesmo a acompanhante mais fraca. Quando eu trabalhava, atendia 8 a 10 clientes por dia. Se estava na actividade era ter clientes e fazer dinheiro, não era para estar a olhar para as paredes.

“Chego à Santa Casa da Misericórdia e peço o rendimento mínimo. Sabe o que acontece? Recusam-me o rendimento mínimo porque sou prostituta”

Como funcionaram as suas duas casas durante o período de confinamento de Março e Abril?
Fechámos, elas foram para casa e eu assumi o encargo de lhes pagar um ordenado. Obviamente, o que já aplico hoje é o que eu gostava que já estivesse na lei. Se houver uma rapariga que um dia não trabalha, não deixa de receber. Recebe 30 euros, ou seja, metade de um convívio mínimo, que são 60. Nenhuma casa faz isto hoje.

Quantas casas há em Lisboa?
Na Grande Lisboa aponto para umas 200 a 250.

São mais ou menos do que há alguns anos?
Mais, porque não há legislação. Hoje qualquer um abre uma casa com miúdas. As pessoas não têm noção. A prostituição está cada vez mais a roçar o ridículo. Um homem quando procura prostituição quer um momento agradável, de relaxamento, procura prazer, carinho. A vida não está fácil, a vida em casa não está fácil, querem um momento agradável. Mas depois há um grosso de homens que hoje só querem miúdas novinhas. Para mim, são pedófilos. E as miúdas estão todas a ingressar na profissão. As brasileiras que hoje vêm para Portugal já não são mulheres da minha idade ou um pouco mais novas, são miúdas de 16 anos, que já vêm de propósito para Portugal para isto.

Há tráfico de seres humanos?
Não, porque elas sabem muito bem ao que vêm. São chamadas por outras. Há brasileiras a abrirem casas e a recrutarem outras brasileiras novinhas.

E portuguesas menores também há?
Muitas. Um homem de 60 ou 70 anos o que é que pretende de uma menina de 16 ou 17? Você tem noção de que há clientes que pedem miúdas com o período porque dizem que assim parece que lhes estão a tirar a virgindade. Isto é ridículo. Se ele tiver 25 anos e ela 17, é diferente. Sabe qual é a primeira coisa que perguntam quando ligam para aqui? “Qual é a miúda mais novinha que têm?” Só recebo aqui clientes que querem um momento tranquilo, o resto anda à procura de clientes novinhas. Não quero isso aqui, não é ilegal mas aos meus olhos é. Por isso é que proponho os 21 anos como idade mínima para se entrar na profissão.

Porque é que não aceita mulheres de nacionalidade brasileira nas suas casas
Brasileiras, ucranianas, não interessa. Trabalho como muita dignidade. Costumo dizer que apesar de ter entrado nesta profissão há coisas que não perdi, como o carácter, a honra e a dignidade. Não engano clientes. Gosta, gosta, não gosta, não gosta.

Está a dizer que as acompanhantes brasileiras não se comportam com dignidade. Não é uma generalização sem fundamento?
Mas elas comportam-se quase todas da mesma forma. Trabalhei numa casa em que havia oito portuguesas para quase 40 brasileiras. Ninguém sabe melhor o que é trabalhar com brasileiras. Elas fazem todas o mesmo: muito mel com o cliente, até chuparem o dinheiro todo e darem cabo dos casamentos. Depois metem-nos a andar. Elas não deixam cá nem um cêntimo, mandam tudo para o Brasil. São as maiores activistas contra a regulamentação da prostituição porque acham muito mal termos de pagar impostos em Portugal.

Há mais detractores da sua iniciativa. O Movimento Democrático de Mulheres considera a prostituição uma forma de violência e um atentado à dignidade da mulher. O Movimento dos Trabalhadores do Sexo também está contra.
O  Movimento dos Trabalhadores do Sexo é uma associação de brasileiras. Acham que a prostituição deve ser a partir dos 16, mas discordo.

Diz no livro que começou como acompanhante por desespero. Estava desempregada, tinha dois filhos, não tinha apoio do ex-marido nem dos seus pais. Este não é o melhor argumento contra a regulamentação da prostituição e do lenocínio?
Não.

Não faria mais sentido resolver os problemas sociais que podem conduzir as pessoas à prostituição?
Uma coisa é haver apoios em prol de quem já entrou na prostituição. Outra coisa é legalizarmos algo que existe e que hoje funciona sem regras, cada um faz o que lhe apetece.

Mas porquê apoiar quem já está na prostituição se o Estado deveria resolver os problemas sociais que podem levar à prostituição?
Ambas as coisas podem ser feitas em paralelo. Por exemplo, sou prostituta, chego à Santa Casa da Misericórdia e peço o rendimento mínimo. Sabe o que acontece? Recusam-me o rendimento mínimo porque sou prostituta. Se disser que a prostituição não é uma profissão reconhecida pelo Estado, dizem-me que independentemente disso tenho rendimentos e não posso aceder ao rendimento mínimo. Se disser que esses rendimentos não são declaráveis, respondem que não interessa, porque sou prostituta. Então sou prostituta e tenho fonte de rendimento, mas não estou legal porquê?

Os críticos da sua iniciativa dizem que o objectivo é apenas o de legalizar o lenocínio.
A prostituição em Portugal não é legal nem ilegal, não tem legislação. Por isso é que há tráfico de seres humanos. As raparigas levam porrada ou são assaltadas e não podem fazer nada, têm medo de apresentar queixa na polícia. Entram homens pelas casas adentro — as ditas máfias, outra realidade que as pessoas desconhecem — e partem tudo, dizendo que a partir dali ou elas lhes dão um “x” por mês ou da próxima vez ainda será pior.

Tem problemas com máfias nas suas duas casas?
Não, mas tive aqui um assalto em Dezembro relacionado com isso. Sem legislação, acontece tudo e mais alguma coisa. Se eu entrar numa esquadra da polícia e quiser fazer uma denúncia, sou tratada abaixo de zero, ninguém me liga nenhuma.

Mas também quer legalizar o lenocínio, certo?
O que quero é uma lei com direitos e deveres, com regras e punições. Não quero a despenalização do lenocínio agravado. O presidente do Tribunal Constitucional já me deu razão [declaração de voto em acórdão de 2016]. Lenocínio simples é uma coisa, lenocínio agravado é outra coisa e deve ser crime.

Lenocínio simples é que acontece nas suas duas casas?
É.

Como é que pode falar disso em público sem consequências?
Sei que incorro num crime, mas então incorro até ao fim, porque já estou a tentar legalizar a situação. Uma esteticista vai trabalhar para um salão de cabeleireiro e leva o seu material de trabalho. Recebe 15 a 20% do que ganha. A dona do salão fica com o resto. E não é crime porquê? Aqui em Lisboa pago 2.150 euros de renda mensal, 500 euros de água, quase dois mil de electricidade, 3.600 em anúncios na internet e mais 600 de 15 em 15 dias no Correio da Manhã, etc., etc. Compro o material de trabalho das raparigas, pago-lhes a alimentação, se elas não trabalharem pago-lhes como se estivessem a trabalhar. Elas têm segurança, têm higiene e condições de trabalho. As casas de banho e os quartos são limpos e desinfectados a cada convívio. Há uma pessoa que vem aqui de 20 em 20 dias falar com elas e dar-lhes informações sobre doenças sexualmente transmissíveis. Não acha correcto que seja 50% elas e 50% para mim? Eu acho correcto, mas a lei diz que é lenocínio simples.

Se incorre num crime, como é que não está a ser investigada ou julgada?
Posso estar a ser investigada, mas vão investigar o quê, se eu digo tudo?

Em que ponto está a apreciação da petição?
Estou à espera que suba plenário da Assembleia da República e seja votada, mas já para me garantir lancei também uma Iniciativa Legislativa do Cidadão, que vai consubstanciar a petição. Estamos na fase de recolha de assinaturas, precisamos de 20 mil.

Ao todo, quantas mulheres trabalham consigo?
Quase 30. Mas deixe-me dizer: durante o confinamento, eu troquei com a Direção-Geral da Saúde vária correspondência, para darem apoio às raparigas e não deram.

O vosso trabalho continuou durante o confinamento?
Continuou. É gravíssimo, mas compreendo, porque estas pessoas ganham ao dia e não podem estar paradas. Se houvesse legislação, podiam pôr baixa médica ou ter apoios. Foi tal a necessidade que houve raparigas a fazer deslocações a casa do cliente por 20 euros, quando uma deslocação nunca é menos de 150 euros. Houve fome. No meu caso concreto, fechei a porta. Quando o país começou a desconfinar, as que tinham maior risco ficaram em casa com os filhos uma das outras e juntámos as que estavam mais saudáveis e fomos para Évora. Trabalhámos em solidariedade para com as que não podiam.

Repartiram o lucro?
Tudo.

Já houve casos de covid-19 entre as suas colaboradoras?
Graças a Deus, não.

Não há sexo com distanciamento social ou máscara…
Pois, isso é impossível. Eu por exemplo tenho uma saúde delicada e não posso de maneira nenhuma apanhar o coronavírus. Tenho insuficiência cardíaca e tive um problema pulmonar há relativamente pouco tempo.

Voltemos ao início: o livro faz muitas acusações a quem critica a prostituição e assume juízos de valor sobre fetiches sexuais. Há algum ressentimento?
Não, acho é que algumas fantasias já não são sexo nem fantasias.

A que é que atribui esse possível exacerbar dos fetiches sexuais? É por influência da pornografia na internet?
Penso que é precisamente isso. Acho que as pessoas vêem muita coisa na internet, querem vir tornar isso real e acabam por gostar. Depois só conseguem atingir o orgasmo daquela maneira. A mente das pessoas está a ficar doente, já não sabem o que é sexo. Prefiro ter cinco clientes que vêm única e exclusivamente para sexo do que ter um cliente de 1500 euros cheio de taras, que depois nos deixam perturbadas a nível psicológico.

O livro foi revisto por algum jurista?
Foi.

Dá exemplos de  figuras públicas que foram clientes das suas casas. Não diz os nomes, mas dá a entender. Teme problemas?
Não digo do nome de ninguém. Toda a gente procura a prostituição. Toda a gente. Seja actor, cantor, advogado, médico, varredor, peixeiro, arrumador de carros. As pessoas vivem constantemente num teatro de falsidade e hipocrisia.

Há alguma ficção no livro?
Nenhuma. Tudo o que aí está é verdade.

Texto: Bruno Horta
Fotografia: João Pedro Morais

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