Coronavírus: manter-se seguro em comboios, aviões e automóveis


Lena Ciric
professora de engenharia ambiental na University College London (UCL)

Muitos de nós dependem dos transportes públicos para ir para o trabalho e a escola, e para estar com amigos e familiares. Mas em tempos de covid-19, é seguro utilizar esses veículos e existe alguma diferença entre eles?

Os transportes contribuíram para a propagação do coronavírus, tanto a nível local como regional e internacional. Apesar das várias medidas destinadas ao rastreio de passageiros, da quarentena após a viagem e do controlo de fronteiras, pessoas infectadas, consciente ou inconscientemente, conseguiram ainda assim viajar. Sabemos agora que uma grande parte das pessoas infectadas não apresenta sintomas de covid-19 e que as pessoas transmitem a doença antes de apresentarem sintomas.

Mas a transmissão do vírus ocorreu nos veículos de transporte público? Existem muito poucas evidências científicas sólidas sobre a transmissão de doenças infecciosas em veículos de transporte público. Isso deve-se à extrema dificuldade em associar uma situação de transmissão a uma viagem específica, dado que existem diversos factores envolvidos. Cientistas em todo o mundo estão a tentar compreender as complexas interacções entre as pessoas e o ambiente que poderão levar à transmissão.

Desde o início da pandemia, alguns estudos demonstraram que a transmissão pode ter ocorrido ou poderá ocorrer em vários veículos de transporte público. No entanto, esses estudos não demonstraram que a transmissão tenha de facto ocorrido no veículo.

Um estudo centrado em comboios apresentou probabilidades de transmissão em função da proximidade de uma pessoa infectada ao recorrer a modelos de risco. Outro estudo, que seguiu um grupo de turistas que viajavam juntos de avião, utilizou questionários para associar situações e diagnósticos ao longo de um determinado período. Simulações por computador de um autocarro com manequins foram utilizadas para criar um modelo da possível distribuição de gotículas portadoras do vírus e calcular a probabilidade de contacto dos passageiros com elas em vários locais. Tudo o que sabemos até agora é baseado em modelos, na probabilidade e no risco.

Uma forma de identificar a transmissão é comparar a sequência genética do vírus recolhido de duas pessoas infectadas e relacionadas por uma situação de contacto. Sabemos que existem várias estirpes do SARS-CoV-2, cada uma delas com uma sequência única.

Apenas um estudo centrado na transmissão em veículos de transporte fez essa comparação. O rastreio de contactos e a sequenciação de ARN viral (ou seja, o material genético de alguns vírus) demonstrou que um casal e dois assistentes de bordo, que tinham viajado num voo dos Estados Unidos para Hong Kong, estavam infectados com a mesma estirpe. Esta estirpe não tinha sido anteriormente encontrada em Hong Kong, o que poderá indicar que a transmissão ocorreu no voo. No entanto, as quatro pessoas também poderão ter ficado infectadas noutro local ainda nos Estados Unidos, onde sequências de ARN viral muito semelhantes foram encontradas com frequência.

Como viajar em segurança

Utilizar qualquer transporte público implica estar em contacto com outras pessoas num espaço fechado. Para avaliar o risco a que poderá ser exposto, existem várias aspectos a considerar: o número de pessoas que poderá encontrar, a duração da viagem e a ventilação no veículo.

Relativamente ao contacto com outras pessoas, quanto menos encontrar, menor será o risco. Por isso, considere viajar fora das horas de ponta e garanta a máxima distância social possível.

As viagens podem durar alguns minutos ou várias horas, consoante a distância e o meio de transporte. Quanto mais longa for a viagem, maior será a probabilidade de ser exposto ao vírus, uma vez que há mais tempo para a contaminação do ar e das superfícies, bem como para o contacto com o vírus.

Os sistemas de ventilação nos veículos de transporte foram concebidos tendo em vista o conforto dos passageiros e a eficiência energética. Existe pouca regulamentação relativa ao nível de ar fresco para os passageiros, excepto no caso dos aviões.

A ventilação numa aeronave é regulamentada de forma muito rigorosa, sendo provavelmente a mais sofisticada, excluindo as salas de operações e as salas assépticas. Um estudo recente do Departamento de Defesa dos Estados Unidos demonstrou que o efeito combinado do sistema de ventilação da cabina e do uso de máscara resultava numa exposição muito menor das pessoas no voo a partículas em circulação no ar. Outros veículos poderão ter uma ventilação de qualidade inferior. Assim, se estiver num autocarro ou num comboio e puder abrir uma janela, faça-o se for seguro.

Deve utilizar uma máscara durante toda a viagem para se proteger de gotículas respiratórias que possam estar contaminadas com partículas do vírus em transportes públicos. Se utilizar um táxi ou um serviço de transporte por aplicação, como o da Uber, abra a janela. Pergunte a si próprio que superfícies poderão ter sido tocadas por várias pessoas. Provavelmente, terá de tocar nelas, por isso, não se esqueça de desinfectar bem as mãos quando terminar a viagem.

Se utilizar um sistema de partilha de bicicletas, desinfecte o guiador antes da utilização. Além disso, é sempre importante respeitar as medidas do operador de transporte.

Ao preparar-se para a viagem, tenha em conta os três pontos acima (pessoas, duração, ar fresco), uma vez que eles irão variar em função do meio de transporte utilizado: autocarro, comboio, metro, avião, táxi, serviço de transporte por aplicação ou sistema de partilha de bicicletas. Viaje em segurança.

Tradução de RH; artigo originalmente publicado a 5 de Novembro de 2020 no “site” The Conversation.

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