Já sabes tudo sobre doenças sexuais?

Todas as pessoas que multiplicam os contactos sexuais com parceiros diferentes estão mais expostas ao risco. Por isso mesmo, quem se dedica à prostituição pode ter problemas de saúde com maior frequência.

O médico João Pedro de Vasconcelos faz-nos resumo do tema numa linguagem simples e acessível. Este especialista em dermatologia e doenças venéreas (isto é, doenças que se transmitem por via sexual) escolheu as seis mais frequentes na população que faz sexo comercial.

Herpes

É uma infecção provocada por um vírus, o vírus herpes simplex tipo 1 ou tipo 2. Muitas pessoas têm herpes oral desde a infância. Após o início da vida sexual activa, esta pode afectar os órgãos genitais e a zona perianal [à volta do ânus], sendo uma infecção de transmissão sexual, quer por contacto oral/genital, oral/anal ou genital/genital. Apesar de incómodo, quase sempre é uma infecção sem gravidade, mas as feridas de herpes podem servir de porta de entrada para outras infecções sexualmente transmissíveis, nomeadamente o HIV (que tem tratamento, mas é incurável).

Sinais e sintomas: O herpes pode manifestar-se por uma erupção de pequenas bolhas agrupadas na região perioral, genital ou perianal. Essas bolhas podem romper-se, deixando pequenas feridas abertas, cobertas ou não por crosta. Habitualmente há ardor associado, que pode ser não só na área das bolhas ou feridas mas em toda a zona ao redor.

Tratamento: O herpes é uma infecção crónica. O vírus fica adormecido no organismo para sempre. Pode manifestar-se uma só vez na vida, como mais do que uma vez por mês. O tratamento consiste em comprimidos de medicação antiviral específicos contra o vírus do herpes.

Condilomas

São pápulas irregulares provocadas pelo vírus do papiloma humano (mais conhecido pela abreviatura inglesa HPV) que se transmite pelo contacto de “pele com pele”. Quando estas verrugas afectam a região genital ou perianal designam-se condilomas. Não costumam acarretar complicações graves nos homens, mas nas mulheres o HPV é responsável por cancro do colo do útero.

Sinais e sintomas: Os condilomas são verrugas, ou seja, pápulas irregulares, habitualmente da cor da pele (mas também podem ser acastanhadas), que surgem em qualquer zona da pele genital ou perianal. Como são salientes podem facilmente sofrer ferimento e sangrar, podendo servir como porta de entrada para outras doenças sexualmente transmissíveis, nomeadamente o HIV.

Tratamento: Os métodos mais utilizados para tratar os condilomas consistem na destruição directa das verrugas com azoto líquido (crioterapia), laser, bisturi eléctrico, etc. Também existe um creme de aplicação tópica nos condilomas, mas requer várias semanas de tratamento e pode não ser eficaz em condilomas de maiores dimensões. A “vacina do cancro do colo do útero” também pode dar alguma protecção contra o aparecimento de condilomas, sobretudo se tomada antes do início da vida sexual activa.

Uretrites

São infecções da uretra (o canal que serve para passar a urina da bexiga para o exterior). Não são o mesmo que infecção urinária, porque não afectam a bexiga. São sobretudo provocadas por duas bactérias: a Chlamydia e a Neisseria. Transmitem-se por contacto genital/genital, oral/genital e anal/genital, pelo que, apesar de estarem associadas principalmente a infecção da uretra, também podem afectar a garganta, o colo do útero e o recto. Nas mulheres, estas bactérias podem dar inflamação interna grave do baixo ventre.

Sinais e sintomas: A uretrite propriamente dita pode dar ardor a urinar e emissão de líquido pela uretra (branco ou transparente, que suja a roupa interior porque vai saindo espontaneamente sem a pessoa dar conta). A infecção da garganta muitas vezes não dá sintomas, mas pode transmitir a doença a outras pessoas. A infecção do recto (proctite) pode manifestar-se com dor, diarreia ou emissão de pus pelo ânus. Por vezes estas bactérias afectam outros órgãos (olhos, articulações, etc.) podendo provocar doença mais grave.

Tratamento: As uretrites, como são provocadas por bactérias, são tratadas com antibióticos específicos. É frequente tratar-se a uretrite com tratamento anti-Chlamydia e anti-Neisseria em simultâneo, mediante uma injecção na nádega e comprimidos de toma oral.

Sífilis

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É uma doença provocada por uma bactéria chamada treponema. Quando não tratada, pode ser muito grave. O seu contágio é sobretudo por contacto genital/genital, oral/genital ou genital/anal. Também pode passar da mulher grávida para o bebé, dando origem a doença grave no filho.

Sinais e sintomas: A sífillis é uma doença complexa que pode passar por três fases.

  1. Sífilis primária: consiste numa ferida genital, oral, anal ou rectal (raramente noutros sítios), habitualmente sem dor, semelhante a uma grande afta. Os gânglios linfáticos mais próximos podem ficar inchados e dolorosos. Habitualmente a ferida passa por si mesma. No interior da vagina, recto e garganta pode passar despercebida porque não dói.
  2. Sífilis secundária: várias semanas ou meses depois de a sífilis primária desaparecer, aparecem manchas em todo o corpo (muitas vezes incluindo as palmas das mãos e plantas dos pés), que podem não dar sintomas nenhuns. Estas manchas também desaparecem espontaneamente ao fim de algum tempo, mesmo sem tratamento.
  3. Sífilis latente, sífilis terciária: depois das manchas desaparecerem a bactéria está no organismo sem que a pessoa tenha sintomas. A mulher grávida pode passá-la ao bebé. Noutros casos a bactéria pode destruir lentamente qualquer órgão do corpo (artérias, coração, fígado, ossos, etc.), destruição essa irreversível. Pode também passar para o cérebro ou medula e provocar demência ou paralisia graves e incuráveis.

Tratamento: A sífilis, apesar de potencialmente grave sem tratamento, trata-se habitualmente apenas com uma injecção de penicilina. O tratamento deverá ser feito o mais cedo possível, para evitar complicações irreversíveis a médio-longo prazo.

HIV/sida

A infecção pelo HIV [vírus da imunodeficiência humana] é actualmente a mais grave doença de transmissão sexual, porque não tem cura, apesar de ter tratamento crónico. O HIV transmite-se por via sexual de qualquer tipo (genital/genital, genital/oral, genital/anal), mas também pode transmitir-se por seringas e agulhas partilhadas e da mulher grávida para o bebé. O HIV destrói lentamente certas células de defesa do organismo, levando após alguns anos a uma doença chamada sida [síndrome da imunodeficiência adquirida], em que o sistema imunitário fica tão fraco que o organismo não consegue defender-se das outras infecções.

Sinais e sintomas: Quando a pessoa contrai o HIV pode ter sintomas semelhantes aos de uma gripe ou faringite, mas também pode não sentir nada. Estes sintomas habitualmente passam por si e a pessoa pode sentir-se bem durante vários anos. Ao cabo de algum tempo, começam a surgir sintomas de outras infecções, ditas oportunistas, bem como certos tipos de cancro. Infecções por fungos na boca, garganta e unhas, pneumonia, tuberculose, diarreia, perda de peso ou febre prolongada podem ocorrer quando a infecção HIV avança para a fase de sida.

Tratamento: Actualmente existe tratamento eficaz para travar a multiplicação do vírus, o que pode suspender a evolução da infecção HIV para a fase sida, mas ainda não existe nenhum tratamento que permita a cura da infecção. Contudo, o tratamento tem que ser tomado todos os dias e para toda a vida e pode ter vários efeitos secundários.

“Chatos”

Os “chatos” são pequenos insectos parasitas da pele dos seres humanos que se alimentam exclusivamente de sangue. Habitam preferencialmente na região dos pêlos púbicos (região peri-genital), tendo um comportamento semelhante ao dos piolhos do cabelo. São transmissíveis por contacto íntimo, “pele com pele”, mas também podem transmitir-se por partilha de vestuário e dormir na mesma cama.

Sinais e sintomas: O principal sintoma desta infestação é a comichão que provoca na região púbica. O coçar favorece que o insecto faça mais picadas para se alimentar, o que pode provocar mais comichão e feridas na pele. Essas feridas favorecem, por sua vez, o contágio de outras doenças sexualmente transmissíveis. Mais raramente podem surgir “chatos” noutras áreas do corpo, nomeadamente nas pestanas. Nem sempre são fáceis de visualizar, podendo ser escassos, sendo visíveis as suas lêndeas (os ovos que depositam, que ficam agarrados à parte inferior dos pêlos).

Tratamento: O tratamento consiste na aplicação de medicamentos sob a forma de loções, espumas ou pomadas que matam directamente os piolhos e as suas lêndeas. Rapar os pêlos de forma rente pode ajudar a eliminar as lêndeas.

(imagens Wellcome Collection)

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